sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Do Bom Fim a Praga, Paris e de volta ao Bom Fim

Do Bom Fim a Praga, Paris e de volta ao Bom Fim

por Moacyr Scliar -- Publicado em 05/11/2010 14:11



Do Bom Fim a Praga, a Paris de volta ao Bom Fim 

O Escritor Moacyr Scliar, membro da Academia Brasileira de Letras, acaba de retornar de uma maratona literária internacional.

 

"Vocês não imaginam o que é disputado o mercado francês. São centenas de lançamentos semanais e pouco espaço nas livrarias para expor tudo. Só fica na vitrine o que é muito importante." Ivan Pinheiro Machado, L&PM Editores

 

No início de outubro último a Clínica Literária noticiou com exclusividade que o escritor estaria viajando para Praga, a convite da Embaixada do Brasil e da Universidade Carolina de Praga (a mais antiga da Europa Central, fundada em 1348) para a palestra "Kafka na Liteturatura Brasileira" (influência do escritor Tcheco Franz Kafka na literatura brasileira) a ser realizada em 11 de outubro de 2010. A palestra de Scliar foi parte da sequência de eventos comemorativos da Embaixada do Brasil em Praga por ocasião dos 188 anos da Independência do Brasil.

 

A missão diplomática brasileira convidou professores e alunos dos cursos superiores de  língua portuguesa e espanhola na República Tcheca (além da própria Universidade Carolina, da Universidade Palacky, cidade Olomouc , da Universidade Hradec Králové, da cidade de mesmo nome, da Universidade Masaryk, da cidade de Brno, e da Universidade de Economia de Praga), como também diretores dos institutos Camões e Cervantes, além de integrantes do Corpo Diplomático Ibero-Americano.

 

De Praga, Scliar viajou para Paris, para o lançamento de seu mais recente livro La Guerre de Bom Fim, e então para Lyon, como palestrante da jornada de literatura latino-americana tradicionalmente conhecida como "Belles Latinas". De volta ao Bom Fim, bairro tradicional de Porto Alegre, a tempo de prestigiar a maior Feira do Livro a céu aberto das Américas, Scliar atualiza a Clínica Literária com seu depoimento sobre, bem..., melhor entregar a pena ao próprio (publicado na Zero Hora em 19/10/2010):

 

De volta a Praga

Moacyr Scliar

 

Estive em Praga pela primeira vez em 1978. Ia em busca da cidade de Franz Kafka, e cidade de Franz Kafka Praga era, sombria como a literatura do grande escritor. Era inverno; a temperatura era de dezessete graus negativos, o sol nunca aparecia. E era o auge do estalinismo; o clima emocional correspondia ao clima meteorológico: pessoas tristes, caladas, ruas escuras, mal-iluminadas. 

 

Nas lojas, pouca coisa para comprar; as prateleiras estavam vazias. O que, contudo, correspondia a uma certa lógica, como me explicou um livreiro que parecia sincero em seu  comunismo. Numa economia planificada, argumentava,  destinada a atender exclusivamente às necessidades da população, não poderia haver artigos sobrando. De qualquer modo aquilo parecia, ao menos para quem estava acostumado à economia de mercado, ao neon da publicidade e às ofertas de produtos diversos, algo estranho, para dizer o mínimo.

 

 

Submarino.com.br
 

Esta estranheza chegou ao auge quando, no embarque para a viagem de volta, o segurança do aeroporto deteve-me e revistou minuciosamente minha mala. Por que o fazia? Se eu estivesse entrando no país, poderia estar trazendo contrabando; mas eu estava saindo, o que importava ao homem minha bagagem? De repente, dei-me conta; ele estava em busca de material subversivo, aquilo que à época era conhecido pelo termo russo de “samizdat”, livros e folhetos contra o regime, que eu poderia estar contrabandeando para o mundo capitalista. Felizmente eu não tinha nenhum “samizdat”, o que teria representado um sério problema.

Na semana passada voltei a Praga, a convite da Universidade Carolina, a mais antiga da Europa Oriental. Tratava-se de um evento promovido por nossa embaixadora na República Tcheca, a dinâmica Leda Lucia Camargo, aliás gaúcha de Porto Alegre. Dei uma palestra sobre Kafka, a América Latina e o Brasil, para um público formado de professores e alunos de literatura brasileira. Visitamos a cidade, minha mulher e eu. De novo foi uma surpresa, desta vez agradável. Para começar os dias eram amenos, ensolarados. E Praga é uma cidade vibrante, que preserva seu passado histórico e artístico, mas está voltada para o futuro.

 

A quantidade de atrações culturais é incrível. No passado, Kafka era um escritor semi-marginalizado pelo regime; agora é uma presença constante – existe inclusive um Museu Kafka, que reconstitui a trajetória desse grande escritor, que morreu cedo, sem ter sua obra reconhecida. Um homem esmagado pelo conflito com o pai, um homem que jamais conseguiu manter uma relação estável com mulheres e que, ao perecer vitimado pela tuberculose, pediu ao amigo Max Brod que destruísse seus originais (coisa que Brod felizmente não fez). Se Kafka fosse nosso contemporâneo, talvez tivesse tido um destino diferente; no divã do psicanalista (em sua época Freud estava ainda no começo da carreira) poderia ter compreendido melhor os seus problemas.

 

A pergunta, obviamente ociosa, é se não teria produzido então outro tipo de literatura, menos deprimente mas também menos genial. Uma literatura, digamos, mais 2010 e menos 1978. Não temos como responder a esta questão. A história das pessoas, como a história da humanidade, às vezes toma rumos inesperados. E isso, que pode ser não raro angustiante, representa o desafio do qual, no caso de Kafka, resultou uma grande literatura. Sombria, como é o clima psicológico sob o autoritarismo, mas mesmo assim grande.

 
 

Mais um Scliar com sotaque francês
quarta-feira, 27 outubro 2010, pulbicado por Ivan Pinheiro Machado, o PM da L&PM Editores, uma das casas do autor

 
No charmoso Boulevard Saint Germain ainda restam duas grandes livrarias tipo aquelas de antigamente; “La Hune” e, 20 metros depois, “L’Ecume des Pages”, ambas no próprio boulevard, quase esquina com rue Saint Benoit. Entre elas, fica o “Flore”, onde Sartre lia os jornais todos os dias pela manhã e à noite Picasso desfilava com suas incontáveis namoradas.

 

Pois bem. Estas livrarias resistem bravamente ao excesso de glamourização do bairro, tomado por Giorgio Armanis, Louis Vuittons, Ralph Laurens que foram comprando os pequenos negócios e transformando em grandes lojas fashions. É o caso da célebre livraria “Le Divan”, na esquina de Guillaume Apollinaire com Rue Bonaparte, a uma centena de metros do boulevard. Há poucos anos capitulou diante de uma oferta irrecusável de ninguém menos do que a Dior.

 



 

Mas estou escrevendo tudo isto para dizer que Moacyr Scliar teve seu livro “A Guerra do Bom Fim” (editado no Brasil pela L&PM) publicado na França pela Éditions Folies d’Encre, traduzida por Philippe Poncet. Vocês não imaginam o que é disputado o mercado francês. São centenas de lançamentos semanais e pouco espaço nas livrarias para expor tudo. Só fica na vitrine o que é muito importante. Pois eu estive tanto na “La Hune” como na “L’Ecume des pages”. E “La Guerre de Bom Fim” estava orgulhosamente nas duas vitrines. Ambos merecem esta honraria; o livro, porque é maravilhoso, e o doutor Scliar porque, além de ser um grande escritor é um cara muito legal. (IPM)

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