quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Clube da Cultura - Melissa Berny

De olhos ávidos e sonhadores Airan Milititsky Aguiar, vice-presidente do Clube de Cultura, numa conversa informal discorre sobre esse clube que muitos nem sabem da existência.
Eu como professora e tentando preservar e repassar uma história bonita penso ser uma injustiça para com os fundadores a sociedade gaucha ainda não conhecer este lugar.
Devemos conhecer sua história, pois além de ser um dos poucos lugares a cultuar as artes foi palco de diversos acontecimentos e manteve-se forte diante dos percalços.
O Clube de Cultura é interessantíssimo, é bem localizado e oferece uma ótima programação para pessoas que buscam cultura.  Infelizmente passa por dificuldades para manter-se ativo, principalmente por necessitar de divulgação e com isso trazer mais freqüentadores. A diretoria está buscando uma inserção na mídia e como o clube não tem uma equipe especializada nisto e só conta com ajuda de voluntários o trabalho fica complicado algumas vezes. E quem faz quase toda parte de divulgação é o próprio presidente Hans Baumann, membro do clube há mais de 55 anos, praticamente desde o inicio.
E esse inicio aconteceu em 30 de maio de 1950, a data de fundação do clube, que tinha por finalidade ser um espaço incentivador da literatura, das danças, das humanidades e um lugar onde houvesse uma integração da comunidade judaica com a sociedade gaúcha. Tanto que a iniciativa foi de ativistas político-culturais, judeus não sionistas.
Na Rua Ramiro Barcelos foi alugada uma casa onde aconteceram algumas atividades. Logo depois resolveram comprar o terreno e transformá-lo numa nova sede onde teriam auditórios e salas para diversos usos, por questões financeiras transformaram-na em condomínio sendo uma parte dele a sede atual do Clube de Cultura.
As atividades eram basicamente o teatro e atividades sociais como encontros, circulo de leitura, palestras e exposições. No auditório do novo clube foi realizado apresentações em Iídiche de marca popular. O clube em 1961 comemorou seu aniversário com Elis Regina.
O clube tinha um coral próprio, regido inicialmente por Esther Scliar e depois por Helena Wainberg, que se apresentou em inúmeros festivais pelo estado com suas músicas eruditas, populares e iídiches. Entre essas, se destacava o Hino Partisans, cantado no ato comemorativo do Levante de Varsóvia.
A identidade do Clube de Cultura vai sendo reformulada com o passar dos anos. Na década de 60 o clube abre as portas a todos, formando um novo grupo de teatro, esse encenou a “Prostituta Respeitosa” de Sartre.E ainda funcionou a Frente Gaúcha de Música Popular que lançou vários nomes, entre eles Raul Ellwanger junto com Cezar Dorfman. Em 64 aconteciam os espetáculos de bossa e nesse ano começou a se tornar perigoso frequentar o clube, depois do golpe militar todas as entidades sofrem uma forte repressão, o clube fechou suas portas por dias e diversos sócios deixaram de frequentar e alguns nem queriam seus nomes vinculados a ele. Depois disso o clube passa a ter outra dinâmica, a juventude e os grupos alternativos passam a usá-lo como sede, e o clube ficou marcado como o lugar onde a esquerda de Porto Alegre se reunia.
Logo após o golpe, a diretoria manifestou interesse em dar vida à obra de Qorpo Santo, o espetáculo foi apresentado em 1966 com direção de Antonio Carlos Sena. Já nos anos 70 foi organizadas oficinas de cinema com Gerbase e Furtado. Os anos 80 ficaram marcados pela Coompor, que era uma cooperativa de músicos, com o projeto Lupicínio canta Lupi e também foram influídos por Caio Fernando Abreu e Luciano Albarse, que montavam os textos do Caio no auditório Henrique Scliar. Henrique Scliar é bastante citado nas crônicas do Moacyr Scliar e foi homenageado em vida com seu nome dado ao auditório que ajudou a construir.
Depoimento do Moacyr Scliar sobre o Clube: O Clube de Cultura foi um marco importante na história da comunidade judaica de Porto Alegre, e na própria história da cidade e do Estado. Era uma entidade "progressista", quer dizer, seus membros eram simpatizantes do Partido Comunista, gente que via na arte e na cultura fatores de transformação social. Daí porque o Clube tinha um amplo programa de atividades: palestras, apresentações teatrais, exposições... No meu caso, a ligação tinha um componente afetivo muito forte: durante anos a figura chave no Clube foi meu tio, Henrique Scliar, pai do pintor Carlos Scliar e do fotógrafo Salomão Scliar. Tio Henrique era um homem de extraordinária cultura e dedicação: quando da construção do Clube muitas vezes ele trabalhou lado a lado com os operários. O fim do sonho comunista foi um golpe para a instituição. Mas o sonho que ela representava permanece vivo.
O Clube de Cultura sai do circuito cultural nos anos 90 e atualmente é frequentado por jovens de pré-vestibular em razão as palestras oferecidas. A presença Judaica no clube hoje é quase rara porque o clube foi afastando-se da comunidade e o vinculo que ele tinha se dava por uma cultura judaica que foi morrendo.
A democratização da cultura continua sendo aquele ideal iluminista “quanto mais o povo ter acesso a cultura menos ele será manipulado”. E a grande premissa não é ser um espaço de mero consumo, mas um espaço de produção cultural.
A cidade precisa investir em cultura de qualidade e em lugares deste tipo que a oferecem. O fortalecimento do Clube de Cultura é deveras importante.
Quer se associar? Simples, vá até o clube que fica na Rua Ramiro Barcelos 1853, e se torne sócio! A mensalidade fica em torno dos 20 reais e dá direito ao associado frequentar as atividades promovidas pelo clube livremente e tem descontos nas promovidas na sede por outras entidades
Quer saber mais? Dê uma olhada no blog clubedecultura.blogspot.com/
Quer saber sobre atividades? Mande um email clubedecultura@gmail.com  
O importante é frequentá-lo e manter viva essa história!
Agradecimento ao Clube de Cultura por abrir suas portas e ao Airan por me conceder à entrevista.

Melissa Berny

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