sábado, 25 de setembro de 2010

O paciente como Pinóquio

O paciente como Pinóquio

Comecei minha carreira médica trabalhando no Hospital Sanatório Partenon, em Porto Alegre. Os pacientes tuberculosos recebiam um esquema básico de três drogas, e o ácido paraaminosalicílico (PAS) era extremamente desagradável de tomar: 12 gigantescos comprimidos, difíceis de engolir e que, como diz o nome, eram ácidos, e irritavam o estômago. Os pacientes diziam que cumpriam a prescrição, mas muitos deles simplesmente jogavam o remédio pela janela. Uma medida que tinha as pernas curtas: era só examinar a grama do lado de fora da enfermaria: onde caía o PAS ela estava, por causa do ácido, queimada.

Um método empírico de checar a adesão ao tratamento, mas há outros, mais precisos e sofisticados. Na Escola de Medicina Johns Hopkins (EUA) médicos tratavam pacientes com problemas respiratórios fornecendo-lhes um inalador para ser usado três vezes ao dia. Acontece que o aparelhinho tinha um dispositivo que registrava o número de vezes que isso realmente acontecia. Só 15% dos pacientes estavam cumprindo a prescrição. E 14% até esvaziavam o nebulizador para enganar melhor o médico.

Não se sabe exatamente que percentagem de pacientes mentem para seus médicos. Estimativas falam em até 40%. E a pergunta se impõe: por que mentem, essas pessoas?

Por várias razões. Em primeiro lugar temos os “temas tabu”: certas práticas sexuais (sexo anal é um caso), álcool, drogas. Depois temos aqueles que querem ser “bons pacientes”: dizem que fazem exercício, que se alimentam adequadamente, que não fumam, e não é verdade. Alguns mentem para não perder o emprego ou para driblar o seguro saúde. E existem aqueles que simplesmente esquecem de tomar os remédios e dizem ao médico que estão cumprindo a prescrição direitinho.

No fundo, os pacientes mentem porque seres humanos mentem. Mentimos quando nos sentimos culpados e/ou acuados: em certas ocasiões somos como crianças surpreendidas fazendo alguma travessura. E aí o jeito é imitar o Pinóquio, mesmo ao risco de ver o nariz crescer.

Só que as consequências da mentira podem ser sérias. A pessoa não conta que está tomando certo tipo de medicação. O médico prescreve um remédio, há uma interferência medicamentosa com o medicamento que o paciente está tomando e aí reações graves podem ocorrer.

Conclusão: a verdade ainda é o melhor caminho, que os médicos podem ajudar os pacientes a trilhar. Ao invés de um interrogatório policial, o profissional deve dizer algo como: “Muitas pessoas não tomam a medicação que foi prescrita, por várias razões. Será que isso está acontecendo com você?” Funciona. Afinal, se Pinóquio se transformou num bom menino o paciente também pode assumir a sua condição de adulto digno e responsável.

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