sábado, 25 de setembro de 2010

Trinta anos sem Vinicius de Moraes

Moacyr Scliar: Trinta anos sem Vinicius de Moraes

Como poeta, não teria meios de ganhar a vida, mas cedo descobriu que poderia colocar seu talento na música

MOACYR SCLIAR
Esta sexta-feira, 9 de julho, assinala um melancólico aniversário: há 30 anos morria Vinicius de Moraes, uma das figuras mais marcantes da cultura brasileira, um talentoso poeta (ou poetinha, como, modestamente, se denominava) e compositor. Carioca, Vinicius teve uma vida movimentada e sob muitos aspectos pitoresca. Era, para começar, um boêmio inveterado, apreciador do uísque, e grande conquistador: casou-se nada menos que nove vezes e teve inúmeros casos. Viveu numa época de grande agitação política, mas sua atuação nessa área foi, às vezes, desconcertante: começou como integralista, a versão cabocla do fascismo europeu, que enganou a ele e a muitos outros: Dom Hélder Câmara, Santiago Dantas, Adonias Filho, José Lins do Rego. Depois tornou-se um esquerdista, mas moderado. De profissão, era diplomata, mas, de novo, não muito atuante; o porteiro de uma das embaixadas onde atuou resumia assim o seu expediente: De manhã não trabalha, de tarde não vem. Em vez de servir no Uruguai, para onde estava designado, ficou no Rio, apresentando-se em botecos, o que deu ensejo à ditadura para cassá-lo. Como poeta, Vinicius certamente não teria meios de ganhar a vida; mas cedo descobriu que poderia colocar seu talento na música, tornando-se parceiro de grande compositores: Toquinho, Baden Powell, João Gilberto, Chico Buarque e Carlos Lyra e, sobretudo, Tom Jobim, com quem compôs Se Todos Fossem Iguais A Você, A Felicidade, Chega de Saudade, Eu Sei Que Vou Te Amar, Insensatez, e, claro, Garota de Ipanema.
Ninguém duvida de que esta canção é um símbolo do Brasil. A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos lista-a entre as 50 principais obras musicais de todos os tempos, e é conhecida em todo o mundo, inclusive pela famosa gravação com Frank Sinatra. Para isso concorreram vários fatores. Em primeiro lugar, o ano em que foi composta, 1962, marcou o auge da bossa nova, importante movimento musical. Depois, era Rio de Janeiro, cidade que deixara de ser capital, mas que continuava sendo o centro artístico e cultural do país. Aliás, Garota de Ipanema tem muitas afinidades com o vibrante Cidade Maravilhosa, da qual é o lado lírico, brejeiro. Porém, mais que Rio, era Ipanema, o bairro mais sofisticado do país, o equivalente brasileiro do Village em Nova York, da Rive Gauche em Paris, de Bloomsbury em Londres. E mais que Ipanema era a garota, a beleza brasileira celebrada de maneira eloquente. Foi inspirada em Helô Pinheiro, uma bela moça que, a caminho da praia, costumava passar pelo Bar Veloso (hoje Bar Garota de Ipanema), onde Vinicius e Tom Jobim faziam ponto.
A letra inicial, logo abandonada, era um tanto depressiva e não muito brilhante: Vinha cansado de tudo/ De tantos caminhos/ Tão sem poesia/ Tão sem passarinhos/ Com medo da vida/ Com medo de amar... E aí, a grande ideia: em vez de queixumes, de lamentos, a vibrante celebração: Olha que coisa mais linda mais cheia de graça/ É ela a menina que vem e que passa/ Num doce balanço a caminho do mar/ Moça de corpo dourado do sol de Ipanema/ O seu balançado é mais que um poema/ É a coisa mais linda que eu já vi passar...
Helô Pinheiro deixou de ser garota, e procurou outros caminhos, que não o do mar. Casou (mais de uma vez), tornou-se apresentadora de tevê, empresária e dona de uma cadeia de lojas chamada, claro, Garota de Ipanema - a expressão também figura em destaque em seu blog. Ah, sim, e continua uma bela mulher.
Sua história enseja uma curiosa questão: serão platônicas as grandes paixões? Será que nascem, não na cama, mas na mesa de um bar, brotando do coração de alguém a olhar uma menina que vem e que passa, num doce balanço, a caminho do mar? Uma indagação que o grande Vinicius deixou sem resposta.
DONNA ZH

A velhice maquiada

Moacyr Scliar: A velhice maquiada

Livro lançado nos Estados Unidos ensina aos idosos como não parecer idosos

MOACYR SCLIAR
O chamado abismo entre gerações só fez se aprofundar nas últimas décadas, em primeiro lugar porque as pessoas estão vivendo mais, o que aumenta a proporção de idosos na população, e depois porque a tecnologia, que não para de avançar, substituiu aquela tradicional sabedoria que tornava os velhos pessoas respeitáveis. A velhice perdeu muito de seu prestígio; mostra-o um livro recentemente aparecido nos Estados Unidos que tem como objetivo exatamente isso: ensinar aos idosos como não parecer idosos.
Intitula-se How Not to Act Old (Como não Agir à Moda dos Velhos, em livre tradução). É obra da jornalista e escritora Pamela Redmond Satran (este sobrenome lembra Satan, e acho que não por acaso, como já veremos). Trata-se de uma ampliação do website hownottoactold.com, pelo jeito muito popular. E suas considerações não se restringem a roupas, dieta, botox e cirurgia plástica; envolvem o estilo de viver e a maneira de falar.
São dezenas de conselhos, alguns primando pela obviedade. Cuidado com a gíria, diz Ms. Satran, e de fato todo mundo sabe que o uso de gíria antiga é sinal de velhice. Quem usa a expressão azar fresquinho? E saindo um pouco da gíria, quem chama táxi de carro de praça, senão os mais antigos? Se você for convidada para um casamento, não mande fazer vestido novo. Não chore na hora da cerimônia. Para os homens: não fique bêbado. Se vai viajar, não fique ansioso, não chegue no aeroporto três horas antes. Não prepare uma bagagem de quem está emigrando.
Mas Satran vai mais além. Ela também sugere os assuntos sobre os quais se deve e não se deve falar. Menopausa, por exemplo, é assunto tabu. Doença também é. Idosos estão proibidos de falar sobre suas mazelas (diabetes, pressão alta) e sobre a quantidade de medicamentos que estão tomando, um tema aliás, preferencial. Mais: devem evitar conselhos, tipo "vai chover, leve o guarda-chuva".
Até aí ainda dá para aceitar. Mas há um outro assunto tabu: os netos. A dúvida inevitavelmente emerge: o que farão os avós corujas, que são praticamente todos os avós? Como conseguirão reprimir a vontade de contar a última do netinho ou da netinha, de mostrar as fotos, coisa que, aliás, ficou frequente, agora que todo o mundo têm cameras digitais?
Mas o livro chega ao clímax quando Sartran formula o seu conselho maior: "Não morra". Logo em seguida, porém, dá-se conta do absurdo - nem os membros da Academia Brasileira de Letras acreditam na imortalidade – e emenda: "Mas, se você morrer, escolha morrer como jovem, não como velho". Exemplo de morte jovem: perecer num desastre de moto. É uma coisa tristemente frequente, como a gente constata pelo noticiário, mas será que alguma pessoa, jovem ou idosa, deveria morrer assim?
O pior, porém, é o exemplo que a escritora dá de uma morte de velho: alguém que tem um enfarte fazendo sexo com uma mulher daquelas chamadas de "vida fácil" (espero que esta gíria ainda seja atual). Sartran vê isso como uma coisa vergonhosa e em muitos casos certamente é, mas, convenhamos, é algo que mostra um apego à existência, uma verdadeira celebração do instinto vital, que, sendo instinto, escapa à classificações moralistas.
Ao final do livro, a gente fica se perguntando: valem a pena todas essas precauções? Será que não é melhor assumir a idade que a gente tem, e que, apesar de tudo, traduz uma verdade? Será que os idosos terão de fingir para serem aceitos pelos mais jovens? Se a resposta for afirmativa, não podemos escapar à conclusão de que a autenticidade passou para um segundo plano. E isso não é uma boa. Que pessoas de idade aprendam a usar o computador, que façam esporte, que cuidem da aparência, que aprendam a andar de moto, tudo bem. Mas que renunciem à sua própria vida, à sua identidade, essa não. Os livros de autoajuda têm de arranjar um assunto melhor. Como diz a resenha do jornal Independent, a autora esqueceu só uma coisa: não existe nada mais velho do que ficar se preocupando em como evitar a aparência de velhice.
DONNA ZH

Astúcia, inteligência, sabedoria

Moacyr Scliar: Astúcia, inteligência, sabedoria

Quando se trata de salvar a pele, o melhor mesmo é a astúcia

No interessante Onde Encontrar a Sabedoria? (Ed. Ponto de Leitura), o respeitado crítico norte-americano Harold Bloom observa que, ao longo do tempo, as pessoas sempre recorreram aos livros e aos autores famosos com o objetivo de se tornarem mais sábias. Leitura, esse era o raciocínio, pode ser uma coisa difícil, mas o esforço valeria a pena se, como resultado, a pessoa se tornasse mais sábia. Cabe, contudo, a pergunta: será que este é um sonho comum à humanidade? Será que todos nós queremos a sabedoria? Será que no Brasil, em particular, é este um ideal?
Tenho minhas dúvidas. Sabedoria é uma condição que resulta de uma profunda compreensão do mundo e da condição humana. Nós não nascemos sábios, não nascemos com esta compreensão; temos de adquiri-la através da vida, e isso se faz mediante conhecimento (daí a necessidade da leitura) mas também graças ao "insight", o "conhece-te a ti mesmo", de Sócrates, mediante o qual aprendemos a não nos deixarmos iludir por nossa arrogância, a reconhecer nossas limitações e defeitos, a pensar e a agir de forma serena e desapaixonada. Agir, sim; sabedoria não é só pensar bem, não é só ter conhecimento e entender as coisas. Sabedoria é agir bem, resolvendo os problemas de forma eficaz, mas de forma ética, decente.
Um componente importante da sabedoria é a inteligência, a palavra que vem do latim e quer dizer entendimento. A pessoa inteligente entende, mediante o raciocínio e a experiência, as coisas, mesmo complexas. É uma habilidade que, diferente da sabedoria, pode ser avaliada, e até quantificada; daí os testes de inteligência, incluindo o famoso QI, quociente de inteligência, aliás objeto de controvérsia nos últimos anos.
Ser inteligente não é ser sábio: na sabedoria o furo está mais acima. A pessoa inteligente nem sempre age bem; a história da humanidade está cheia de vigaristas que aplicavam e aplicam golpes inteligentíssimos (os hackers, por exemplo). No fim essas pessoas se dão mal, exatamente porque lhes falta esse conhecimento maior que é a sabedoria.
Isso é ainda mais verdadeiro no caso da astúcia, que não é sabedoria nem inteligência. É uma coisa menos sofisticada, mais primitiva, daí porque, nas fábulas, é simbolizada por um animal, a raposa. A raposa não é sábia nem inteligente; a raposa é astuta. Astúcia é a habilidade de enganar; astúcia é manha, esperteza. Zélia Duncan diz isso na letra de uma música: Astúcia, astúcia/O que te faltou foi astúcia/Pra roubar meu coração faltou muito pouco/Era só ter procurado no outro bolso. Astucioso é o cara que procura no outro bolso; é o cara que sabe como roubar. Isso explica por que a astúcia é ainda tão valorizada no Brasil: porque representa uma maneira fácil de conquistar as coisas, de subir na vida. Se vocês perguntarem a alguém como se ganha eleições, se com sabedoria, com inteligência ou com astúcia, a pessoa certamente optará por esta última alternativa, atrás da qual estão séculos de safadeza e de corrupção. Mas é que as duras condições da vida em nosso país, a pobreza, a desigualdade, deixaram esta lição: para sobreviver é preciso ser astuto, esperto. É muito glamouroso ser inteligente, é digna de admiração a pessoa sábia; mas, quando se trata de salvar a pele, o melhor mesmo é a astúcia.
Compreensível. Mas não satisfatório. Nós só chegamos à verdadeira maturidade quando a astúcia reconhece a importância da inteligência e quando esta é um recurso para atingir a sabedoria. Um Brasil sábio deveria ser o nosso objetivo maior.
DONNA ZH

Conflito e conciliação

Moacyr Scliar: Conflito e conciliação

O bom senso nem sempre está disponível em nossas cabeças

MOACYR SCLIAR
Conciliação e conflito representam importante binômio em nossas vidas, correspondendo mais ou menos ao Eros e Tanatos de Freud, o instinto da vida e o instinto da morte; ou, na mitologia, a Venus e Marte, amor e agressividade. Em seu 37º ano, o Fantástico acertou em cheio ao introduzir, em abril desse ano, um quadro chamado exatamente assim, O Conciliador, apresentado por Max Gehringer. Que parte de uma necessidade bem real. Tramitam, na sobrecarregada justiça brasileira, cerca de 70 milhões de processos, 80% dos quais poderiam ser resolvidos mediante simples bom senso. Acontece que esse bom senso nem sempre está disponível em nossas cabeças. É preciso mobilizá-lo, e é isso que o Fantástico se propõe a fazer desde abril desse ano.
Que o consegue mostrou-o o programa do domingo, 8 de agosto. O caso era daqueles que, dependendo da maneira como é contado, deixa as pessoas revoltadas. Um rapaz atravessava uma movimentada avenida no centro de São Paulo, pela faixa de segurança, quando um carro atropelou-o. O jovem foi jogado à distância e teve uma fratura complicada de clávicula, o que levou a uma imobilização prolongadas. O motorista teria ido embora sem prestar ajuda à vítima.
Nossa reação, ao ouvir uma história assim, é de indignação: esse motorista é um bandido, deveria apodrecer na cadeia para aprender a respeitar os outros. Mas seria mesmo o homem esse bandido sanguinário?
Ele foi trazido ao programa, junto com a mãe do jovem. Não parecia bandido nenhum. Ao contrário, a câmera mostrava um homem de meia idade, humilde, assustado. Um pintor, residente em Embu, cidadezinha conhecida como reduto de artistas em São Paulo. E a história que contou foi diferente. Não, não tinha furado o sinal, que estaria aberto para ele. E sim, teria se oferecido para ajudar o rapaz. Já a mãe deste, entrevistada antes da "audiência de conciliação", declarou que estava chocada pelo que considerou um descaso com a vida de seu filho.
Uma situação dessas poderia se transformar num bate-boca perpétuo. Mas o contexto era conciliador, e isso funcionou. Mais: transformou-se num processo de catarse que chegou ao clímax quando o homem começou a chorar. Já não era possível vê-lo como um tipo cruel, agressivo; não, quem estava ali era um homem angustiado, sofredor. Da mesma maneira mudou a mãe do adolescente. Ela não queria dinheiro, não queria indenização; queria justiça e propôs que o pintor prestasse serviço comunitário, o que ele aceitou. No final os dois se abraçaram: aquele final feliz que a gente só via nos antigos filmes de Hollywood e que em nosso mundo violento parece uma impossibilidade.
Como foi possível essa conciliação? Em primeiro lugar, por causa do contexto em que ocorreu. Era um estúdio da Globo, havia pessoas promovendo a conciliação diante de câmeras que representam a opinião pública e que funcionam como uma espécie de super-ego. Mais: se aquelas duas pessoas haviam aceitado comparecer ao programa, era porque previamente se dispunham a fazer as pazes. Talvez, na vida real, não seja tão fácil conciliar as pessoas.
Mas é uma possibilidade. E a simples possibilidade de conciliação é a coisa que deveríamos sempre ter presente em nossos corações e mentes, nem que seja sob a forma de uma pergunta: será que eu não poderia resolver esta pendência (seja uma questão de negócios, seja um problema familiar, seja uma discussão entre vizinhos) de outra maneira? Será que não poderíamos chegar a um acordo bom para todo o mundo?
A resposta certamente é positiva. E data de muito tempo; desde aquela época em que a expressão "Paz na terra às pessoas de boa vontade" foi incorporada à história da humanidade. É verdade que a frase começava com um "Glória a Deus". Mas isso está implícito: Deus certamente se sente glorificado quando as pessoas vivem em paz.
Registro, sobre vários temas que aqui tenho abordado, as mensagens de Ney Machado, Maria Augusta Xavier da Silveira, Jurema Josefa, Carlos Pinent, Julio Werne Xavier Abel, Dr. Luiz Carlos Capssa Lima, Dr.Jorge Omar, Aino Jacques, Ana Nunes, Moina M.Fairon Rech, Dr.Renato Anicet (grande jogador de basquete), Cristiane Moro dos Santos, Gustavo T.do Nascimento, Marisa Fresino, Cristiane Klamt Kuhn, Luiz Baú, Tarcisio R.Ruschel, Waldomiro Minella, Lotario Neschling, Leomar Veiga, Dr.Fernando Luiz Brauner, Felipe dos Santos Machado, Regis R.Baldino, Israel Rahal, Dr. Jorge Montardo, Wagner Carlos, Loila Matos, João Gregol. Gente inteligente e sensível.
DONNA ZH

Enfrentando o General Inverno

Moacyr Scliar: Enfrentando o General Inverno

Segundo a música de Jorge Ben, moramos num país tropical, um país onde o calor deveria ser a regra. Mas, ao menos no Sul, não é. Ondas de frio podem baixar brutalmente a temperatura, como vimos nesta semana. Pessoas morreram, provavelmente por hipotermia, uma condição que ocorre quando a temperatura corporal fica abaixo de 35°C.

Nestas condições surgem tremores, arritmias cardíacas, cianose (coloração arroxeada da pele) e, muito perigoso, confusão mental; desorientada, a pessoa não sabe o que está fazendo, e muitas vezes tira a roupa, agravando sua situação. O metabolismo fica lento, e a morte pode ocorrer.

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O que causa a hipotermia? A exposição ao frio, claro, mas há fatores que agravam esse efeito: a idade (quanto mais idosa a pessoa, pior); o consumo do álcool, que dilata os vasos, faz com que a pessoa perca calor, mas dando a sensação de “aquecimento”; a proteção inadequada contra o frio, tanto nas casas (aqui no Rio Grande do Sul não acreditamos em calefação) quanto nas roupas.

A hipotermia sempre foi muito comum entre os sem-teto, mas pode ocorrer em qualquer pessoa que faça, por exemplo, esportes ao ar livre. Portanto, atenção, caminhantes e corredores: abriguem-se. Roupas de lã e fibra sintética são preferíveis ao algodão, porque aquecem mais.

No tratamento da hipotermia, o reaquecimento é básico: imersão em água quente (cerca de 45°C), bolsas de água quente, em geral colocadas nas axilas, hidratação, medicamentos. Curiosamente, a hipotermia é usada em medicina, exatamente porque retarda o metabolismo, e isto pode ser necessário em situações nas quais o funcionamento do organismo está agudamente prejudicado: por exemplo, em casos de parada cardíaca.

Em animais, a hibernação, que tem o mesmo efeito, ocorre durante os meses frios, diminuindo as necessidades calóricas.

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No passado, a baixa temperatura devastava tropas que faziam campanha militar durante os meses frios. Aníbal, no segundo século a.C., perdeu metade de seus soldados na guerra contra Roma; e na Rússia Napoleão Bonaparte foi derrotado pelo “General Inverno”. Que pode ser impiedoso. Mas com bom senso a gente o vence.

Coluna publicada no caderno Vida deste sábado 
ZERO HORA - VIDA

O pai adolescente

Moacyr Scliar: O pai adolescente

Somos pais de nossos filhos, mas somos também os irmãozinhos deles

Esses dias apareceu na tevê uma reportagem sobre adolescentes, rapazes e meninas, que, de repente, se tornam pais e mães: uma tragédia psicológica e social resultante do descompasso entre a biologia e a maturidade emocional, um descompasso que se torna cada vez maior, na medida em que aumenta a expectativa de vida e expande-se aquele período que conhecemos como adolescência. Quando, por descuido, por imprevidência, ou até por uma questão de desafiadora auto-afirmação os jovens não adotam precauções para evitar a gravidez, veem-se de repente confrontados com uma realidade que faz parte da vida mas que, antecipada, adquire o caráter de problema, quando não de desastre.
Foi entrevistado no programa um rapaz de 16 anos, não identificado (seu rosto, como manda a legislação, aparecia desfocado), mas que, mesmo assim, falou sobre sua condição de pai estreante e involuntário. Seu tom era uma mistura de resignação, de perplexidade, mas, curiosamente, também de alegria, modesta alegria: afinal de contas, a paternidade é uma realização, e, para gente pobre, por vezes é uma das poucas realizações possíveis. De qualquer maneira, ele parecia otimista: vou arranjar emprego, disse, vou trabalhar, vou criar meu filho. Ou seja: a natureza estava falando mais alto, o instinto de paternidade já estava nele se manifestando. Mas isso é apenas o começo de uma longa história, feita de noites sem dormir, de momentos de angústia (criança doente assusta qualquer pai), de preocupações. E junto, o júbilo que nasce do primeiro sorriso, do primeiro passo, da primeira palavra. No caso desse rapaz, a paternidade tem um outro significado. Ele está dando adeus à própria infância, está dando adeus à sua juventude. Adeus, skate. Adeus, baladas. Adeus, colégio. Eu agora sou um pai. Sou um senhor.
É? É mesmo um senhor? Um senhor pai? Será que ele não vê no bebê antes um irmãozinho, talvez o irmão que não teve? E será que o filho também não o verá da mesma maneira? Afinal, a imagem paterna sempre está associada à de um homem velho; o próprio Deus-Pai é representado assim, um senhor idoso, longa barba branca. Pai jovenzinho não é bem pai.
Mas isso, convenhamos, não tem importância: acontece em maior ou menor grau com todos os pais e filhos. Somos pais de nossos filhos, mas somos também os irmãozinhos deles (e às vezes, quando doentes ou senis, os filhos deles): velhos, mas meninos, velhos-meninos. E volta e meia regressamos à infância; por exemplo, quando recebemos o presente de Dia dos Pais. Por um momento recuperamos a alegria que tínhamos quando, rapazinhos, soprávamos as velas do bolo de aniversário.
Mas só por um momento. Em seguida a hierarquia se restabelece. Em seguida nos tornamos de novo pais. E dizemos, ao abrir o presente: "Ora, não precisava, eu já tenho chinelos iguais a esse." E rapidamente viramos o rosto, para que o nosso filho não veja as lágrimas do gurizinho.
DONNA ZH

Moacyr Scliar: Uma estranha, e admirável,mulher

Moacyr Scliar: Uma estranha, e admirável,mulher


A vida de Florence Nightingale, a criadora da moderna enfermagem, daria um romance

Este agosto assinala o centenário de falecimento de uma mulher cuja trajetória foi absolutamente fascinante. Estamos falando de Florence Nightingale (1820 1910), a criadora da moderna enfermagem (por causa dela este é também o Ano Internacional da Enfermagem, uma categoria que merece entusiásticos aplausos), e cuja vida, como se costuma dizer, daria um romance. Era de família próspera; os Nightingale viajavam constantemente pela Europa, o que aliás explica o seu nome: nasceu em Florença, a segunda das duas filhas do casal. Os pais eram pessoas religiosas, gente tradicional: Florence estava destinada a receber uma boa educação, a casar com um cavalheiro de fina estirpe, a ter filhos, a cuidar da casa e da família. Mas logo ficou claro que a menina não se conformaria a esse modelo. Era diferente; gostava de matemática, e era o que queria estudar (os pais não deixaram). Aos 16 anos, algo aconteceu: Deus falou-me escreveu depois e convocou-me para servi-lo. Um episódio que poderia caracterizá-la como uma mística, mas, diz o historiador Lytton Strachey, a moça estava longe de ser uma beata desligada da realidade.
Servir a Deus significava, para ela, cuidar dos enfermos, e especialmente dos enfermos hospitalizados. Naquela época, os hospitais curavam tão pouco e eram tão perigosos (por causa da sujeira, do risco de infecção) que os ricos preferiam tratar-se em casa. Hospitalizados eram só os pobres, e Florence preparou-se para cuidar deles, praticando com os indigentes que viviam próximos à sua casa. Viajou por toda a Europa, visitando hospitais. Coisa que os pais não viam com bons olhos: enfermeiras eram consideradas pessoas de categoria inferior, de vida desregrada. Mas Florence foi em frente e logo surgiu a oportunidade para colocar em prática o que aprendera. Naquela época, Inglaterra e França enfrentavam Rússia e Turquia na guerra da Crimeia. Sidney Herbert, membro do governo inglês e amigo pessoal, pediu-lhe que chefiasse um grupo de enfermeiras enviadas para o front turco, uma tarefa a que Florence entregou-se de corpo e alma: cuidava incansavelmente dos pacientes, percorrendo enfermarias à noite; era a "dama da lâmpada", segundo a expressão do Times de Londres. Florence providenciava comida, remédios, agasalhos, além de supervisionar o trabalho das enfermeiras. Mais que isso, fez estudos estatísticos (sua vocação matemática enfim triunfou) mostrando que a alta mortalidade dos soldados resultava das péssimas condições de saneamento. Seus méritos foram reconhecidos, e ela recebeu uma importante condecoração da rainha Vitória.
Isso tudo não quer dizer que Florence fosse, pelos padrões habituais, uma mulher feliz. Para começar, não havia, em sua vida, lugar para ligações amorosas. Cortejou-a o político e poeta Richard Milnes, Barão Houghton, mas ela rejeitou-o. Ao voltar da guerra, algo estranho lhe aconteceu: recolheu-se ao leito e nunca mais deixou o quarto. É possível, e até provável, que isso tenha resultado de brucelose, uma infecção crônica contraída durante a guerra; mas havia aí um óbvio componente emocional, uma forma de fuga da realidade. Contudo - Florence era Florence - mesmo acamada, continuou trabalhando intensamente. Colaborou com a comissão governamental sobre saúde dos militares, fundou uma escola para treinamento de enfermeiras, escreveu um livro sobre esse treinamento.
Estranha, a Florence Nightingale? Talvez. Mas estranheza pode estar associada a qualidades admiráveis. Grande e estranho é o mundo, é o título de um livro do romancista Ciro Alegría; grandes, ainda que estranhas, são muitas pessoas. E se elas têm grandeza, ao mundo pouco deve importar que sejam estranhas.
DONNA ZH

O paciente como Pinóquio

O paciente como Pinóquio

Comecei minha carreira médica trabalhando no Hospital Sanatório Partenon, em Porto Alegre. Os pacientes tuberculosos recebiam um esquema básico de três drogas, e o ácido paraaminosalicílico (PAS) era extremamente desagradável de tomar: 12 gigantescos comprimidos, difíceis de engolir e que, como diz o nome, eram ácidos, e irritavam o estômago. Os pacientes diziam que cumpriam a prescrição, mas muitos deles simplesmente jogavam o remédio pela janela. Uma medida que tinha as pernas curtas: era só examinar a grama do lado de fora da enfermaria: onde caía o PAS ela estava, por causa do ácido, queimada.

Um método empírico de checar a adesão ao tratamento, mas há outros, mais precisos e sofisticados. Na Escola de Medicina Johns Hopkins (EUA) médicos tratavam pacientes com problemas respiratórios fornecendo-lhes um inalador para ser usado três vezes ao dia. Acontece que o aparelhinho tinha um dispositivo que registrava o número de vezes que isso realmente acontecia. Só 15% dos pacientes estavam cumprindo a prescrição. E 14% até esvaziavam o nebulizador para enganar melhor o médico.

Não se sabe exatamente que percentagem de pacientes mentem para seus médicos. Estimativas falam em até 40%. E a pergunta se impõe: por que mentem, essas pessoas?

Por várias razões. Em primeiro lugar temos os “temas tabu”: certas práticas sexuais (sexo anal é um caso), álcool, drogas. Depois temos aqueles que querem ser “bons pacientes”: dizem que fazem exercício, que se alimentam adequadamente, que não fumam, e não é verdade. Alguns mentem para não perder o emprego ou para driblar o seguro saúde. E existem aqueles que simplesmente esquecem de tomar os remédios e dizem ao médico que estão cumprindo a prescrição direitinho.

No fundo, os pacientes mentem porque seres humanos mentem. Mentimos quando nos sentimos culpados e/ou acuados: em certas ocasiões somos como crianças surpreendidas fazendo alguma travessura. E aí o jeito é imitar o Pinóquio, mesmo ao risco de ver o nariz crescer.

Só que as consequências da mentira podem ser sérias. A pessoa não conta que está tomando certo tipo de medicação. O médico prescreve um remédio, há uma interferência medicamentosa com o medicamento que o paciente está tomando e aí reações graves podem ocorrer.

Conclusão: a verdade ainda é o melhor caminho, que os médicos podem ajudar os pacientes a trilhar. Ao invés de um interrogatório policial, o profissional deve dizer algo como: “Muitas pessoas não tomam a medicação que foi prescrita, por várias razões. Será que isso está acontecendo com você?” Funciona. Afinal, se Pinóquio se transformou num bom menino o paciente também pode assumir a sua condição de adulto digno e responsável.

De que morreu Simon Bolívar?

De que morreu Simon Bolívar?

Dificilmente haverá, na história da América Latina, uma figura mais importante do que Simon Bolívar (1783-1830), o Libertador, líder político e militar venezuelano que, juntamente com José de San Martín, desempenhou papel importante na luta contra o domínio espanhol. Foi ele quem conduziu à independência Venezuela, Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá e Peru.

Morreu relativamente cedo, de tuberculose, segundo a versão mais corrente. Afinal, seus pais haviam falecido da mesma, e muito comum, enfermidade; Bolívar tinha tosse, febre e emagrecimento acentuado, tudo compatível com esse diagnóstico. Mais importante, o cadáver foi necropsiado, e o laudo (ainda que à época não muito preciso) foi exatamente esse, de tuberculose.

Recentemente surgiram dúvidas a respeito, inclusive na área médica. O dr. Paul Auwaerter, da prestigiosa Escola de Medicina da Johns Hopkins University, aponta outros problemas de Bolívar que não tinham necessariamente a ver com tuberculose: dores de cabeça, artrite, queixas digestivas, escurecimento da pele. E levanta uma hipótese: Bolívar morreu de envenenamento por arsênico.
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Bolívar não é a primeira figura histórica cuja morte gera polêmica. O mesmo aconteceu com Napoleão, exilado na ilha Santa Helena. E, curiosamente, suspeitava-se de que também nesse caso houvera envenenamento por arsênico, substância que foi encontrada no corpo do líder. Um crime político, cometido por inimigos de Bonaparte.

A ideia de que Bolívar tenha sido envenenado é apoiada por Hugo Chávez, presidente da Venezuela, que vê aí, igualmente, um crime político – cometido por um general colombiano. Como se sabe, Chávez tem uma já longa briga com o atual governo colombiano, agravada recentemente, quando o governo colombiano acusou Chávez de abrigar vários líderes das Farc na Venezuela. Chávez negou as acusações e, em sinal de protesto, chamou de volta a Caracas o embaixador venezuelano em Bogotá. Conclusão: a discussão sobre a causa da morte de Bolívar pode ter interesse não ser apenas histórico ou científico, mas também político.
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No caso de Napoleão, concluiu-se que ele morreu de câncer do estômago. Quanto ao envenenamento por arsênico, diz um artigo publicado em Science et Vie (Ciência e Vida), ocorreu, mas não foi agudo: Napoleão deve ter absorvido o arsênico de produtos usados no cabelo e de outras substâncias. Em relação a Bolívar, diz o dr. Auwaerter, o envenenamento pode ter resultado de medicamentos com arsênico, então muito usados (ainda no século 20 tratava-se a sífilis com produtos arsenicais), ou mesmo de água contaminada.

Uma interessante discussão, do ponto de vista científico. Mas muito perigosa quando posta a serviço de objetivos políticos.

Moda e saúde


  • Moda e saúde

    É impressionante a influência que artistas pop podem ter sobre o estilo de vida do público, sobretudo o público jovem. Isto se refere à maneira de falar, à maneira de vestir, ao uso de variadas substâncias (drogas, inclusive) e acaba levando a situações que podem prejudicar a saúde.

    Recentemente, a Academia Americana de Oftalmologia divulgou um alerta acerca de um risco para os olhos que é, no mínimo, inusitado, um alerta motivado, contudo, por uma situação real. Nos Estados Unidos, muitos jovens estão usando lentes de contato decorativas que dão à pessoa aquele olhar esbugalhado das bonecas. Pergunta: o que teria motivado esta estranha moda? Resposta: é o exemplo de uma cantora extremamente popular por estes dias, Lady Gaga. No vídeo Bad Romance, ela usa essas lentes, que fazem os olhos parecerem maiores porque cobrem não apenas a pupila e a íris (a parte colorida) como também uma boa porção do branco dos olhos.

    A epidêmica moda, advertem os oftalmologistas americanos, não é isenta de riscos. Qualquer tipo de lente de contato requer uma receita e deve ser ajustada por um profissional. Uma lente inadequada ou mal ajustada pode causar dor ou inflamação, em alguns casos levando à abrasão da córnea, que é a parte externa do olho, a infecções e até à cegueira. E é um perigo muito real sobretudo porque se tornou verdadeira mania: uma garota entrevistada na TV contou que já estava no seu décimo quarto par de lentes. Desnecessariamente: no You Tube, Michelle Phan, especialista em maquiagem, explica como reproduzir os olhos gigantes de Lady Gaga de uma forma bem mais barata e sem riscos.
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    Não é de hoje que as pressões da moda, ou da cultura, ou de crenças variadas, levam as pessoas a castigarem seus corpos, às vezes de forma atroz. É o caso da clitoridectomia, a amputação do clitóris, ainda hoje praticada na África e no Oriente Médio, um tema que foi recentemente abordado no pungente filme Flor do Deserto. É o caso de tatuagens, de batoques no nariz e no lábio, do hábito chinês de miniaturizar os pés das crianças mediante ataduras. E foi o caso do espartilho, muito popular no século 19, uma espécie de colete que, colocado na cintura das mulheres, dava-lhe uma aspecto de ampulheta. O uso do espartilho prejudicava a coluna, causando dores, e comprimia as vísceras, os pulmões, o estômago, os intestinos, o aparelho circulatório, causando desmaios.

    Muitas vezes há, atrás disso, o interesse da indústria. Tomem o caso da notícia acima comentada; ela apareceu na internet, num site chamado Medical News, que, como muitos sites, publica também anúncios. E um desses apregoava “lentes da moda”, marca FunkyEyes, dizendo: “Mude sua aparência com lentes coloridas”. E a pergunta que se impõe é: onde fica a racionalidade que, diz-se, caracteriza a espécie humana?