quarta-feira, 26 de maio de 2010

O complexo de Robin Hood

Tirado da ZH Online, 22/05/2010 20h10min

Moacyr Scliar: O complexo de Robin Hood

A figura do herói não pode ser rotulada como progressista ou reacionária

A nova versão de Robin Hood, dirigida por Ridley Scott e estrelada por Russell Crowe, mostra como o tema é persistente. Começou a ser explorado ainda no tempo do cinema mudo (Douglas Fairbanks, em 1922); o herói já foi vivido por Errol Flynn, em 1938, por Kevin Costner, em 1991, entre outros. Tanto mais surpreendente quando se considera que Robin Hood nunca existiu; é uma figura lendária, embora heroica (ou exatamente por ser heroica), um fantástico arqueiro e espadachim, sempre acompanhado por seu alegre e pitoresco bando, executando assaltos audaciosos, para desespero do inimigo, o inescrupuloso xerife de Nottingham. E, aí vem o detalhe principal, Robin Hood roubava dos ricos para dar aos pobres. O que, durante séculos arrebatou corações e mentes; o medieval herói configurava-se como um exemplo a ser seguido. Aliás, e certamente não por acaso, no lançamento do filme Russel Crowe deu mil libras para uma instituição de caridade. Ainda recentemente, foi detido pela polícia inglesa o jovem (23 anos) Stephen Jackley, que assaltou numerosos bancos e agências de apostas em Herefordshire; seu objetivo era arrecadar cem mil libras e doá-las para instituições de caridade (talvez abatendo o montante do imposto de renda). Não por outra razão, psicólogos falam de um complexo de Robin Hood, que pode ser encontrado em pessoas ou em grupos.

Será que a esquerda se enquadra, ou se enquadrava, nessa situação? A resposta não é clara, porque a própria figura de Robin Hood não pode ser facilmente rotulada como progressista ou reacionária. De um lado, o herói parecia um pioneiro, ainda que heterodoxo, da redistribuição de renda, coisa que sempre foi bandeira dos reformadores sociais; de outro lado, contudo, faltava-lhe um projeto ideológico de tomada do poder, de instauração do socialismo: Robin Hood nunca falou na mais valia marxista, por exemplo. Resultado: prudente, cauteloso silêncio.

Que agora se revela providencial. É que acaba de aparecer um livro, intitulado Robin Hood, o Templário Desconhecido, do pesquisador John Paul Davis, que se propõe a fazer revelações sensacionais sobre o herói. Os Templários, vamos recordar, eram uma ordem religiosa de cavaleiros medievais que tinham como objetivo conquistar e administrar os lugares sagrados na antiga Palestina, então em poder dos muçulmanos.

Era um grupo muito rico que inclusive dedicava-se ao empréstimo de dinheiro, no que aliás se constituíam em exceção, já que a Igreja proibia tal prática. Pois Davis achava que Robin Hood foi um Templário. Baseia-se numa antiga balada, A Saga de Robin Hood, segundo a qual o bandoleiro teria emprestado 400 libras a um senhor feudal, que devia dinheiro a um rico abade. A dívida é paga no prazo estabelecido de um ano, e Robin Hood, além de receber o que emprestou com bons juros, aumenta seus ganhos, assaltando o abade. Este último detalhe pode mostrar um componente antirriqueza e anticlerical que certamente satisfaria qualquer revolucionário, mas não obscurece o fato de que Robin Hood, ao menos segundo a balada, tinha uma indisfarçável vocação para banqueiro.

A julgar por esta teoria, estava certa a esquerda, ao ignorar a lenda. Porque a verdade é que o comunismo de hoje já oferece dores de cabeça em quantidade suficiente para atormentar qualquer ideologo marxista, a começar pelos investimentos chineses nos Estados Unidos, um poderoso sustentáculo para o capitalismo mundial e uma contradição embaraçosa.

Robin Hood? Só no cinema. E haja pipoca.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Os projetos na gaveta

Moacyr Scliar: Os projetos na gaveta

Todos temos, em nossas gavetas, uma pasta com fragmentos de papel em que garatujamos algo que poderia ser a fórmula de nossa felicidade

Tenho, numa gaveta, uma pasta de cartolina na qual escrevi Ideias. Seu conteúdo: folhas de papel, dos mais variados tamanhos e formatos, incluindo bloquinhos de anotações de hotel, convites para eventos e lançamentos de livros (um destes de minha autoria), folhetos de propaganda. Em todas essas folhas há algo rabiscado: as ideias. Ideias para contos, ideias para crônicas, ideias para livros até. Ideias em profusão, ideias que ao longo do tempo me iam ocorrendo e que eu, como tantos que escrevem, anotava para posteriormente desenvolvê-las. O que, na imensa maioria dos casos, nunca aconteceu. E isso por várias razões.

Para começar, em muitos casos não consigo entender o que escrevi. Em parte isso resulta da famosa letra de médico, uma situação que, a propósito, não deixa de ser intrigante: de onde viria essa fama de clássica ilegibilidade? Da pressa com que os doutores, sempre lutando com a falta de tempo, escrevem? Ou seria uma curiosa manifestação de poder, tipo "decifra-me ou te devoro", como dizia a esfinge na história de Édipo? Ou simples desleixo? Mistério, mas de qualquer maneira, uma questão à parte, mesmo porque, além desse componente, digamos, profissional, pesavam as circunstâncias em que as mensagens eram escritas: num carro sacolejante, por exemplo. Ou no meio da noite, os olhos fechando de sono.

Como se isso não bastasse, mesmo legíveis, as anotações revelam-se crípticas, misteriosas. Citando ao acaso: "A frase no sonho", "Inventário das dores", "Catastróficos e deslumbrados", "Ator morre antecipando a morte", "Se Deus se materializasse", "História do cirurgião que inventa uma operação maravilhosa", "Foi melhor assim".

Vamos ficar só com estas duas últimas. "História do cirurgião que inventa uma operação maravilhosa". Que operação seria essa? Que doença ela curava, que problema resolvia? E o que acontecia, então?

Perguntas intrigantes. Mas "Foi melhor assim" é, em matéria de enigma, ainda pior. "Foi melhor assim" – o quê? De que fala, essa frase? A quem se refere? Que história ela resume?

Todas estas anotações têm uma coisa em comum: são projetos que não decolaram. Por quê? Porque não tinham em si próprios a carga criativa suficiente para impô-los a seu próprio autor? Porque tornaram-se incompreensíveis?

Estas coisas envolvem um grau de mistério que não é pequeno. E aludem a esse aspecto característico da condição humana: todos temos sonhos não realizados, objetivos não atingidos. Todos temos, em nossas gavetas, uma pasta com fragmentos de papel em que garatujamos apressadamente algo que certamente poderia ser a fórmula de nossa própria felicidade. Ah, se ao menos lembrássemos o que ali escrevemos. Se ao menos entendêssemos nossa própria letra.