sábado, 27 de fevereiro de 2010

A glória da melancia

A glória da melancia

Moacyr Scliar


A gente pensa que padrões de beleza dependem exclusivamente de gostos pessoais, de idiossincrasias. É verdade, mas só em parte. Quando achamos uma mulher bela, não estamos apenas aplicando padrões estéticos pessoais. A cultura também nos influencia, e, antes da cultura, a biologia está presente: coisa hoje muito discutida mas não são poucos os cientistas defensores da idéia segundo a qual opções pelo sexo oposto dependem da necessidade evolucionista de gerar uma prole com a pessoa mais adequada para vencer a implacável luta pela subsistência.

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Tomem o caso da Andressa Soares, que está galvanizando a atenção dos brasileiros e que é conhecida como a “mulher-melancia” por causa do tamanho das nádegas. Ninguém nega que melancia é uma fruta deliciosa, mas será que é a metáfora a causa do fascínio? Provavelmente não. São as nádegas.

Diz um blog na Internet que as nádegas da Andressa são verdadeiros contêineres. O que faz algum sentido. As nádegas são um habitual depósito para a gordura corporal; em termos do metabolismo equivalem, vamos dizer, à poupança (só que não paga juros). Tal depósito, em períodos de fome coletiva, poderia garantir a sobrevivência da pessoa, sobretudo da mulher, mulher essa que tinha, portanto, um certificado de garantia, e que podia escapar imune ao recall da morte pela desnutrição. Assim, as hotentotes africanas ficaram famosas pelas grandes nádegas. Um exemplo famoso foi o de Saartjie Baartman (1789-1815), conhecida como a nus Hotentote – o apelido aludia a uma conhecida estátua grega da deusa Vênus, a “Vênus calipígia” que mostra (e olha, por cima do ombro) suas bem desenhadas nádegas. Saartjie viajou pela Europa exibindo, em circos, as nádegas. Mediante pagamento extra os interessados podiam tocá-la.

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Subindo um pouco (no corpo, não na vida), temos as cadeiras, que também fascinam os homens. Como diz o samba de Dorival Caymmi a respeito da “Vizinha do lado: “Ela mexe com as cadeiras pra cá, ela mexe com as cadeiras pra lá, ela mexe com o juízo do homem que vai trabalhar.” Cadeiras amplas nos falam de uma bacia ampla, capaz de, na gravidez, acomodar sem problemas o bebê. E cadeiras móveis falam do prazer que esta mulher é capaz de proporcionar ao parceiro.

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Nem todos os povos e culturas são fixados em nádegas e cadeiras. Os americanos, por exemplo, gostam de mamas grandes. O cirurgião plástico Ivo Pitanguy conta que uma vez uma americana procurou-o dizendo que tinha problemas com os seios. De fato eram muito grandes, e Pitanguy disse que poderia diminui-los mas, para sua surpresa, não era isso que a mulher queria, ela queria aumentá-los ainda mais. A preferência masculina por seios enormes, coisa que certamente influenciava a decisão dessa mulher, teria uma explicação freudiana: resultaria de uma fixação infantil no seio materno.

E, por último, a boca. Todo homem gosta de uma boca carnuda. Lábios finos, apertados (“tight lips”) levantam suspeição: fazem-nos pensar numa pessoa voltada para dentro, egoísta, maquiavélica. Porque a mucosa, rósea,úmida, delicada, corresponde à intimidade da pessoa, e é esta intimidade que queremos partilhar quando estamos enamorados.

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No filme chinês O sabor da melancia, a fruta funciona, ainda que de maneira complicada, como símbolo erótico: um casal faz sexo com uma melancia entre o homem e a mulher. O que lembra certas histórias que a gente ouvia na infância: na falta de mulher ou de qualquer outra alternativa para o contato sexual, as melancias eram mobilizadas. Pobres melancias. Mas para uma fruta que vai ser comida de qualquer jeito, talvez aquilo fosse apenas uma manobra introdutória.


Um comentário:

Patrícia Lara disse...

Adoro seus textos!
Parabéns, pelo trabalho maravilhoso que desenvolve.

Abraços e a minha admiração,
Patrícia lara