segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Os dilemas da Fortuna

Uma americana de 55 anos ganhou duas vezes na loteria no espaço de cinco meses no Estado da Pensilvânia -uma coincidência cuja chance de acontecer é de 1 em 419 milhões. Donna Goeppert ganhou US$ 1 milhão (R$ 2,43 milhões) em cada vez que foi premiada pela loteria da Pensilvânia. Folha Online, 16.06.2005
Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas a chance de acertar duas vezes na loteria não deve ser muito maior. Quando isso aconteceu, ela ficou simplesmente estarrecida, mesmo porque não era uma pessoa particularmente afortunada: ao contrário, ela e o marido levavam uma vida modesta, no interior, lutando com dificuldades. Agora, porém, tudo mudava: 1 milhão de dólares, e mais 1 milhão de dólares -duas vezes milionária ela podia pensar em se aposentar, em deixar de trabalhar, em passar o resto de seus dias gozando a vida.Não era o que pensava o marido.
Logo depois da notícia do prêmio ele ficara muito contente. Em seguida, porém, começou a se mostrar inquieto. Homem dado a certas especulações esotéricas, acreditava que aquilo não era acaso, mas sim um desígnio do Destino. Há um recado aí, repetia constantemente à mulher. Um claro recado, para ele: a mulher deveria apostar de novo. Quem tinha ganhado duas vezes seguramente ganharia uma terceira vez. Mais: ele passou a acreditar que a mulher, para quem aliás nunca dera muito bola, era uma criatura especial. Aquele tom meio esverdeado de sua pele, aqueles olhos esbugalhados, os cabelos que - por causa do curioso penteado - pareciam duas antenas, aquilo não apontaria para uma certa origem misteriosa? Não seria ela uma alienígena, uma Supermulher, deixada ainda bebê na maternidade do lugarejo, em lugar de outra menina qualquer? Ela deveria jogar na loteria, sim. Jogaria e ganharia. Mesmo porque, como ele deixava claro, não se tratava só de dinheiro. Ganhando três vezes na loteria ela deixaria de ser apenas uma pessoa de sorte, passaria a ser uma mulher abençoada, prodigiosa. E aí mil possibilidades surgiriam: ela poderia, por exemplo, dar início a uma nova seita (para a qual ele já tinha até um nome: a Falange dos Afortunados). Poderia fornecer franchising para videntes e adivinhos. Poderia começar uma carreira política, chegando, sem dúvida, à Presidência da República: quem deixaria de votar numa mulher capaz de prever o resultado de qualquer guerra?
Os argumentos do marido deixavam-na apreensiva. Por ela, nunca mais chegaria sequer perto de uma lotérica. Mas sabe que ele ainda dá as cartas. Não escapará, portanto: um dia terá de apostar de novo. Se isso for realmente inevitável, sabe o que fazer: usará seus 2 milhões de dólares para comprar bilhetes de loteria. Um deles forçosamente terá de ser premiado. O Destino não pode ser tão ruim assim.
Folha de São Paulo (São Paulo) 20/06/2005

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