segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Fim de jornada

1. No elevador
Já tem mais de 16 mil membros uma comunidade do Orkut chamada "Eu tenho medo do mesmo". A plaquinha que ilustra a página explica do que se trata: "Antes de entrar no elevador verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar." Folha Ilustrada (Monica Bergamo), 17.mai.2005
Não sei como vocês imaginam a morte, mas uma possibilidade é esta:
Um homem vai tomar o elevador. É um homem de meia idade, obeso, fumante, sedentário, hipertenso, e portanto sujeito a riscos; de fato está saindo de um consultório médico, onde foi por causa de dores no peito e onde recebeu sérias advertências. Mas o homem não tem medo do coração; ele tem medo é do elevador, pois foi assim que seu pai morreu, caindo no poço de um elevador que não se encontrava parado no andar. Isto, claro, não acontece com o elevador que ele toma; o mesmo certamente encontra-se parado naquele andar.
Tão logo entra, porém, uma sensação de estranheza apossa-se dele. Não reconhece a cabine onde está; não é a mesma na qual subiu. Mais: como se tivesse vontade própria, o elevador começa a subir. Ele quer detê-lo, procura o painel dos botões, mas não há botões, não há painel. Nem porta existe mais. É uma espécie de caixa, agora nota, forrada de veludo vermelho. Como se fosse um caixão? É. Como se fosse um caixão.
A dor volta, intensa, avassaladora. O elevador sobe, sobe. Ele deveria estar muito angustiado, mas não está; sente-se resignado.
O que tinha de fazer, fez: certificou-se de que o mesmo estava parado no andar. Agora é ver o que acontece. Há certo consolo nisto: pelo menos vai encontrar o Grande Ascensorista. O único que decide quando o mesmo já não é mais o mesmo.
2. Na marcha
Sem-terra: fim da marcha separa casais de namorados. Folha Brasil, 19.mai.2005
Eles se conheceram durante a marcha. Ele, de Minas Gerais, ela de Pernambuco, foi um caso de amor à primeira vista. Daí em diante não se separaram mais: durante o dia, marchavam juntos, de mãos dadas. As noites, na precária barraca, eram de intensa paixão. Os outros sem-terra os miravam com admiração, com afeto, e até com alguma inveja: quem diria que amor assim ainda existe, comentavam.
Mas tudo chega ao seu fim, inclusive as marchas. Cada vez estavam mais próximos de Brasília, onde faria a demonstração final mas de onde cada um teria de voltar para sua terra.
Para ela esta separação era apenas transitória. Filha de um lendário líder camponês, herdara do pai uma confiança inabalável num mundo melhor, um mundo baseado no ideal e também nos sentimentos mais puros, como aquele que os unia. De modo que era otimista: haveriam de se encontrar na próxima marcha, e na seguinte, e na seguinte. Um dia o sonho da reforma agrária se realizaria; receberiam um pedaço de terra, onde construiriam uma casinha e onde, casados, seriam felizes para sempre.
Já ele não tinha tanta certeza disso. Achava que casamento não era nenhuma garantia; os seus próprios pais tinham se separado depois de muita briga. De modo que uma dúvida agora o assaltava: valia a pena trocar a paixão surgida durante a marcha pela rotina de um casamento insípido?
Decidiu que isso era mau negócio. Portanto, na próxima marcha não estaria presente. Veria os sem-terra na tevê do bar que freqüentava. Talvez avistasse sua amada. Talvez derramasse até uma furtiva lágrima.
Folha de São Paulo (São Paulo) 23/05/2005

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