segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Desempenho

"Reality show" testa performances sexuais. Dezenove pessoas têm suas performances sexuais testadas em busca de um prêmio de cerca de R$ 610 mil. Dos participantes, três homens são casados. Folha Online, 05.06.2005
Quando ela chegou em casa, às 10h da noite, o marido não estava. O que nela não despertou nenhuma suspeita; sabia que estava trabalhando. O emprego, modesto, exigia longas horas, uma obrigação que ele cumpria sem reclamar e que ela também tinha de aceitar. Mas nessa noite a ausência do cônjuge era até providencial. Ela queria assistir a um novo programa de TV e queria fazê-lo sozinha. Porque o novo programa, um "reality show", tinha como mote o desempenho sexual. Os anúncios garantiam que os pares fariam proezas incríveis na cama, animados pela perspectiva de um polpudo prêmio.
Era justamente isso que faltava ao casamento deles. Em matéria de sexo, o esposo era absolutamente rotineiro: papai-mamãe, e estamos conversados. Inovações, aventuras? Nem pensar. Para isso ela só podia contar com a imaginação e, agora, com o "reality show".
Que não a decepcionou. De fato, em matéria de desempenho, os casais enfiariam o Kama Sutra no bolso do colete, se estivessem de colete, claro. As mais incríveis posições, as mais audazes manobras. Ela chegava a gemer de desejo.
Havia um homem que era especialmente bom e que a direção do programa identificava apenas como o Senhor X -ele fizera questão do anonimato. Apresentava-se de máscara e com uma espécie de capa, mas isso em nada atrapalhava o seu desempenho, ao contrário: o cara era soberbo. E compreensivelmente não se identificava: seria perseguido por mulheres até na rua.
De repente ela deu um salto na cadeira. A câmera mostrava agora o Senhor X de costas, e em seu dorso ela via algo que conhecia muito bem: uma cicatriz de curioso formato. A cicatriz que resultara da drenagem de um abscesso na infância. Ela reconhecia a cicatriz, reconhecia as costas, reconhecia o homem: era seu marido.
Esperou-o chegar e nem se deu ao trabalho de fazer perguntas: começou logo a puteá-lo de cima a baixo. O argumento final reservara para o fim:
- Se pelo menos você guardasse um décimo dessas habilidades para mim! Mas não, nem isso mereço!
Ele ouvia em silêncio, impassível. Finalmente ela se calou, ofegante, e ele então começou a falar. Disse que sim, que aceitara participar do "reality show", como aliás participava em muitas coisas desse gênero: dali tiraria o dinheiro para ajudar nas despesas da casa. Uma pausa e aí veio a revelação surpreendente:
- Mas a grande aventura eu vivo em casa. Com você.
Ela não podia acreditar no que estava ouvindo: grande aventura, com ela? De que jeito? E ele então explicou: para ele, posições arrojadas, manobras inusitadas, tudo isso era rotina, coisa que lhe cansava e lhe dava dor na coluna. O que realmente lhe era gratificante, que o comovia até as lágrimas, era o papai-mamãe com a mulher. Uma grande, emocionante aventura.
Ela não sabe se este argumento é sincero ou não, verdadeiro ou não. Mas tem de reconhecer: foi, no mínimo, uma hábil manobra, um audaz posicionamento. Desempenho para esposa alguma botar defeito.

Folha de São Paulo (São Paulo) 13/06/2005

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